It don’t mean a thing (if it ain’t got that swing)

Frank Sinatra 1959 "Come Dance With Me" Capitol Records © 1978 Sid Avery

Minha história com o jazz é antiga. Tudo começou com um Frank Sinatra despretencioso nos almoços de domingo lá em casa. Até hoje quando escuto Strangers in the Night, Fly Me to the Moon, Night and Day, I Get a Kick Out of You (e muuuuuuuitas outras), me transporto imediatamente para a sala do nosso apê do JB, onde cresci e morei até os 30 anos de idade. Lembro de um dia ensolrada, ar-condicionado ligado, almoço feito pela minha mãe e meu pai na poltrona olhando pro horizonte e enrolando o bigode, como sempre. Acho que o Blue Eyes era o jazz mais pop que tinha e o máximo que eu conseguiria apreciar na minha tenra idade. Na época eu não sabia da missa a metade. Não sabia que ele também era ator e que fazia parte do Rat Pack, não sabia que ele tinha envolvimento com a máfia e, principalmente, não sabia que o que ele cantava não era bem jazz.

635849017798977639263194536_ratpack
Dean Martin, Sammy Davis Jr e Frank Sinatra, a parte mais cool do Rat Pack.

O tempo foi passando e eu comecei a me interessar quando meu pai ouvia Ella Fiztgerald. Não é dificil gostar d’Ella. Aquela voz de veludo, afinada e precisa, e o repertório que ela interpretou ao longo da carreira sempre foi magistral. O que meu pai ouvia era o Cole Porter Songbook vol.2 e por muito tempo me limitei a esse disco. Era tão perfeito, e eu tão ignorante musical, que não sentia necessidade de mais do que aquilo. Ella já era minha diva, minha musa, minha ídola com aquelas 16 músicas.

ella-fitzgerald-4ec7911607ac3
A diva das divas (com Dizzy Gillespie admirando)

Foi então que a era digital chegou no mundo da música. Veio o Napster e seus seguidores e, principalmente, o torrent. Ah, o torrent. Construí uma bela biblioteca musical graças a ele, tenho que confessar. Hoje não faço mais essas coisas e compro um álbum no iTunes quando quero algo novo. Mas houve um tempo em que o céu (ou a banda) era o limite para mim. Quando eu ouvia uma música de que gostasse, buscava a discografia do artista inteira. Sempre com a melhor das intenções, queria descobrir mais, ter tudo ao meu alcance. Acabava ouvindo aquela música só e mais um ou outra. Acho que 60% do que eu baixei nunca escutei. Mas ainda tenho quase tudo no meu iPod de 2008.

ELF03
Duke admirando Ella ❤

Nessa onda, baixei TUDO da Ella Fitzgerald. Discos, compilações, singles, o que houvesse. E fui desbravando bem devagarzinho, me concentrando nos clássicos. Um dia, uma amiga postou uma versão de Sophisticated Lady no Facebook cantada por Ella. Me apaixonei e fui procurar na minha biblioteca. Eu tinha! Era parte de um disco que nunca tinha ouvido chamado The Duke Ellington Songbook. Pobre de mim, nem sabia quem era o cidadão. Mas comecei a ouvir aquele álbum (que consiste em 3 discos) e mal pude me conter. Que coisa boa, gente! As melodias eram sublimes, as letras, sensacionais e Ella, como sempre, arrasava a cada faixa. Passei a ouvir aquele disco dia e noite. Acordava ouvindo, dormia ouvindo, sei de cor e salteado de frente pra trás e de trás pra frente. Até hoje, quando ouço, fico meio em transe, dá uma felicidade, uma serenidade. Nossa, bom demais!

 

Já tinha evoluído pacas na cadeia alimentar musical mas ainda era a ponta do iceberg em termos de jazz. Faltava muito a desbravar e dessa vez, foi no meu trabalho que encontrei a porta. Eu coordenava um projeto de um canal de documentários e eu chefe me falou de um tal de uma série sobre jazz dirigida por um tal de Ken Burns. Supostamente era muito boa, um clássico e precisávamos dela no nosso portfólio de qualquer jeito. Hoje posso afirmar que Ken Burns mudou a minha vida.

R-5083954-1384044073-7092.jpegEssa série documental em 10 episódios passeia pela história do jazz como gênero musical vindo desde os pioneiros no início do século XX até chegar a Wynton Marsalis e cia (lembrando que a série é de 2001). Além de ser uma obra audiovisual genial e ter direção e montagem fabulosos, o storytelling é incrível. Didático e envolvente. Os personagens e a trilha sonora ajudam, claro. A história do jazz não podia ser desinteressante.

Pois bem, logo que chegou, comecei a devorar a série e logo no segundo episódio dou de cara com quem? Louis Armstrong. Até então, Louis Armstrong era pra mim aquele cara de voz grave e rouca que cantava What a Wonderful World. Sabia nada, inocente! O cara foi simplesmente revolucionário e praticamente ditou as tendências do jazz por uns bons anos. Começou como um trompetista competente, logo teve sua própria banda e foi pioneiro como instrumento solista numa época em que a big bands eram a regra. A porta que ele abriu para os músicos da época foi importantíssima. E pra melhorar, esse tal de Satchmo (ou Pops, como tb era conhecido) era pura simpatia. Combinação perfeita.

Louis_Armstrong_2
❤ ❤ ❤ ❤ ❤

Ah, e não posso deixar de falar da felicidade que foi quando descobri o tanto de músicas que Louis e Ella gravaram juntos. O contraste das vozes e a semelhança no talento e na simpatia garantiram um legado absolutamente magnífico. Acho que os dois eram bastante amigos, apesar da diferença de idade (ele era 16 anos mais velho). Uma das gravações que mais amo nessa vida é a faixa “I Can’t Give You Anything but Love” do disco Ella e Billie Live at Newport. Ella canta essa música interpretando ambos os papéis e quando imita a voz do Louis não consigo não sorrir de orelha a orelha. Muito amor.

maxresdefault (1) EllaLouis67-530x473 29e2745690e3aba27cc43ad2f5e892ed

Além do Pops, a série reverencia também a inestimável contribuição de Duke Ellignton ao jazz (aquele mesmo do disco da Ella). Até hoje o Duke é considerado um dos compositores mais importantes da história do gênero. Ele não escrevia letras, tinha (excelentes) parceiros para isso. Mas suas melodias são eternas e inconfudíveis.

6a00d8341bfb1653ef0134878cd1d3970c

Eu poderia escrever mais e mais e mais aqui sobre a série, sobre jazz, sobre tudo, mas ainda sou iniciante nesse universo. Ainda preciso desbravar e destrinchar os Sidney Bechets, Benny Goodmans, Charlie Parkers, Count Basies, Chick Webbs, Dizzy Gillespies, John Coltranes e Miles Davis que esse mundo tem pra oferecer. Todos estes são somente instrumentalistas e levaram o jazz para outros caminhos, mais experimentais e mais amargos para o público comum. Mas sou grata por ter podido ter um gostinho de tudo o que o jazz tem a oferecer e posso dizer uma coisa: a vida sem jazz não tem a mesma graça.

maxresdefault (3)
Só o Louis e o Duke zoando o Paul Newman. Nada demais…

Pra fechar, deixo vocês com alguns do ícones retratados na série:

 

 

 

Anúncios

Um comentário sobre “It don’t mean a thing (if it ain’t got that swing)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s