Acadêmicos de Hollywood

Disclaimerzinho básico: contém spoilers. 

Amanhã é dia de Oscar! Desde 1996, quando Coração Valente foi premiado melhor filme, assisto ao Oscar todo ano, ao vivo na TV. Confesso que ficava mais engajada antigamente. Me envolvia mais. Hoje sou mais cética quanto à idoneidade dos votos e acabo ficando mais indiferente por consequência. Mas ainda adoro ver os atores, atrizes e diretores que admiro e, principalmente, gosto de ver a emoção de quem ganha. Porque não importa o quanto você diga a si mesmo que é apenas um prêmio, um ponto de vista, uma opinião, o Oscar é o Oscar e o resto é o resto. Então vamos ao que interessa.

Essa semana um cinema local aqui em Seattle fez maratona de 8 dias passando um indicado a melhor filme em cada dia da semana. Já tínhamos visto 3 (The Martian, The Revenant e Mad Max:Fury Road) e estou implicando com Brooklyn então optei por não pagar pra ver, ou seja, fomos 4 vezes ao cinema ver Bridge of Spies, Room, Spotlight e The Big Short. Foi uma semana muito intensa. Os 4 filmes são filmes muito emotivos e que mexem com a gente. Bom, mexeram comigo. Cada um do seu jeito.

Bridge of Spies Launch One SheetComeçamos com o mais “leve”, Bridge of Spies. O que dizer de um filme do Spielberg. Sempre bom, mesmo quando não é o melhor dele. A história é inspirada em fatos reais mas ele consegue transformar tudo em algo romântico e otimista, sem ser piegas. O cara é incrível. Claro que tecnicamente o filme é impecável mas tem algo de sensível que dá o toque especial. O Tom Hanks ajuda. Sempre. Muito bom ator e capaz de interpretar qualquer papel. Mas não é a toa que este ano ele nnao foi indicado e sim seu coadjuvante, Mark Rylance, que interpreta o espião que Hanks precisa defender no tribunal em plena Guerra Fria. As cenas com os dois são as melhores do filme e o laço que eles criam emociona. Mas acho que o que me pegou de jeito mesmo foi saber, ao final, o quanto ele advogado foi importante em futuras negociações de reféns políticos. Pessoas admiráveis e que se arriscam por seus ideais e valores têm um lugar especial no meu coração.

room_posterO próximo da maratona foi Room. Esse acabou comigo. Tive que me controlar pra não soluçar no cinema e ser convidada a me retirar. O único alívio era não ser uma história real mas não é dificil de imaginar que histórias semelhantes acontecem a torto e a direito mundo afora. É sempre doloroso tangibilizar situações tão horrorosas como a que vivem os personagens do filme. A gente lê histórias no jornal, fica sabendo aqui e ali, imagina como deve ser terrível ser mantido refém de um maluco. Mas quando você vê uma menina de 20 e poucos anos que teve um filho com o sequestrador que a mantinha refém em seu quintal após tê-la levado quando tinha apenas 19 anos e que, quando o filho faz 5 anos (isso mesmo, ela já somava 7 anos presa), decide que não dá mais e precisa dar um jeito de sair dali e dar a seu filho uma chance de ter uma vida real no mundo real, fora daquele quarto, o bicho pega. Tanto a atriz principal quando o menin o que interpreta seu filho fizeram um trabalho impecável, absolutamente sensível e tocante. Tudo é devastador. Ela ter sido sequestrada é devastador. Ela ter engravidado do filho da puta é devastador. Ela estar vivendo em um quarto de 3m² há 7 anos é devastador. E o filho dela não saber como é o mundo exterior e achar que o que vê na TV é mágico é absolutamente devastador. O filme é adaptado de um livro e a narrativa do livro é toda feita do ponto de vista do menino. No filme ele narra algumas cenas também e quando você aquela voz de criança interpretando sua situação bizarra com a inocência que é peculiar a esta idade, o coração simplesmente não aguenta. Fiquei mal.

spotlight_xlgO próximo da lista não foi menos pesado mas com uma abordagem um pouco diferente, menos explícita, para meu alívio. Spotlight é um filme de jornalismo que acompanha um time do Boston Globe em sua investigação sobre um escândalo de pedofilia entre padres na cidade. O filme é bom e tem atuação inspirada, como de costume, do Mark Ruffalo como o repórter principal do grupo. A história não é exatamente novidade, infelizmente. Volta e meia aparece nos jornais algum caso, mas são sempre histórias pontuais que acabam ajudando a propagar uma ideia de que são exceções ou como eles dizem aqui “a few bad apples”. Mas o caso retratado no filme, história real por sinal, vai um pouco além disso. Os repórteres vão fundo na investigação e conseguem expor um problema sistêmico da Igreja, estimulando discussões um pouco mais polêmicas. Mais triste, no entanto, foi saber, ao fim do filme, que as consequências da publicação da matéria não foram diferentes do que vinha sendo praticado pela instituição. Aí você volta pra casa com aquele gosto amargo de desesperança na humanidade mesmo.

7fad57927b8edee2b17272e0b820522bc5669c7aPra fechar a maratona com chave de ouro, o melhor da semana e, pra mim, o que merecia ganhar. The Big Short é um trator que me atropelou e ainda estou tentando entender o que aconteceu. O filme é um furacão. Inovador, dinâmico, atores incríveis desempenhando de forma brilhante, edição precisa e brilhante e roteiro perfeito. A história é bem conhecida de todos nós: a crise econômica mundial oriunda da bolha imobiliária americana. Mas o ponto de vista dessa vez é de alguns indivíduos mais atentos que sacaram o que ia acontecer anos antes e conseguiram lucrar com isso. O filme começa com cara de Ocean’s Eleven, tem um belo timing de comédia, trilha moderna e sketches maravilhosos que ajudam o leigo (como eu) a entender que diabos significa mais da metade dos termos financeiros que eles abordam. Você se pega rindo do fato de que a economia americana vai ruir enquanto os “heróis” do filme estão fazendo o possível pra ser aqueles que riem no final. O problema é que lá pras tantas aquilo começa a incomodar os mais nobres. Complicado rir de uma crise que deixou milhões de desempregados e desabrigados só nos EUA, sem considerar o efeito borboleta que teve no mundo todo entre 2008 e 2009. Mas aí é que o filme consegue, com um brilhantismo peculiar, reverter a situação e mostra que o tempo todo estava ali criticando o sistema todo. E de novo, voltei pra cada com aquele gosto amargo de desesperança na humanidade. Mas dessa vez, com um medo a mais: se o Michael Burry está investindo em água, quando será que ele previu que esta crise (mais que anunciada) vai acontecer. Salve-se quem puder…

Deu pra ver que a semana foi intensa. Muita pipoca, muitas lágrimas, muita relfexão. Mas pro post ficar mais completinho vou falar um pouco dos outros 3 candidatos a que assisti antes dessa maratona.

the-martian-104112-poster-xlargeThe Martian foi legal. Diferente pro Ridely Scott, mais cara de Spielberg. Quase uma fábula, eu diria, porque é bastante inverossímil. Mas é o tipo de filme que eu queria ter deixado pra ver no final da minha maratona porque ele tem uma vibe mais “feel good” no final. Nada muito mais do que isso. Não vejo motivo pra estar entre os melhores filmes e duvido que ganhe pois nem o Ridley Scott está concorrendo a diretor. Seria meio forçado. Sem contar a bizarrice de ele ter sido classificado como Musical/Comédia no Globo de Ouro. Será que essas pessoas viram o mesmo filme que eu?

11089030_660780600694131_276166915544558716_oMad Max:Fury Road foi uma bela surpresa. Vimos os dois primeiros da franquia antes de ver esse pra dar aquela situada, mas de todos os indicados, foi o único que vimos na TV, em casa, e não numa sala de cinema que seria mais adequada para este tipo de filme. Ele tem sim um discurso mais profundo como pano de fundo do que as cenas de corridas mirabolantes no deserto parecem indicar. O papel da mulher é o super trunfo nesse capítulo da franquia e aí reside a importância desse filme a meu ver. Um filme de ação centrado em uma personagem feminina badass deficiente física não se vê todo dia. Bacana, mas eu não daria um Oscar.

revenant-leoPor fim, The Revenant. Ainda estou processando esse aí. Muita expectativa por conta do burburinho que cercou a produção e, de fato, a produção é um desbunde. O Iñárritu deu uma de Kubrick e Lars Von Trier e decidiu buscar a perfeição. Gravou todas as cenas com luz natural, in loco. Os atores passaram por maus bocados gravando no Canadá em pleno inverno, já pensou? Mas tudo pela arte, certo? O DiCaprio tá querendo mesmo levar o Oscar pra casa dessa vez. O resultado foi um filme bem visceral. Sem muitos significados e relfexões, mas uma verdadeira aventura para os personagens e para a plateia. Fiquei desconfortável na minha poltrona enquanto Leo era estraçalhado por aquele urso. Jesus! Que cena antológica! E a luta pela sobrevivência naquele ambiente hostil foi bastante impressionante também. Se essa era intenção do diretor, nos transportar para a história, nos fazer sentir o que ele sentiu, trabalho bem feito. Aplaudo.

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Coitado! Eu acho graça mas o cara merece. Virou piada já…

Mas no final das contas, ainda acho que The Big Short foi o filme mais importante e inovador do ano. Daria pra ele e pro Adam McKay. Pronto, falei.

 

 

 

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2 comentários sobre “Acadêmicos de Hollywood

  1. Ainda bem que eu já tinha lido seu post antes de ver a cobertura do Oscar pela Globo! Vc deve ter visto pelas piadas… A Gloria Pires tava dando vergonha alheia! Hahaha preferia você um milhão de vezes no lugar dela!
    Ainda tenho que correr atrás e ver os filmes. Muita vontade de ver a garota dinamarquesa e o quarto de jack.
    Beijosss

    Curtir

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