Minha distimia

Em meados de 2013 finalmente procurei uma psiquiatra depois de viver algum tempo sem ver graça na vida. Eu estava com o corpo ótimo (depois de um dieta de sucesso), me alimentando bem e com a saúde boa. Tinha um excelente emprego e tudo ia bem profissionalmente. Não estava namorando, no entanto, e isso me parecia o fim do mundo naquele momento. Tinha quase 4 anos que eu tinha terminado meu último namoro e desde então vivi uma montanha-russa sentimental. Alguns casos sem significado e duas paixões que não foram pra frente. Lembro bem de chegar ao ponto de concluir que meu destino era mesmo ficar sozinha. Que esta era a melhor conclusão para mim.

Todo dia de manhã, acordar era um suplício. Nunca gostei de acordar cedo, mas não era esse o caso. Eu chegava no trabalho às 10hs da manhã e morava a 5min de carro de lá. Acordava às 9hs e ainda assim sair da cama era muito difícil. Eu pensava todo dia, ao abrir os olhos de manhã, em como as outras pessoas conseguem ser felizes. As dores do mundo e da vida sempre me pareceram pesadas demais para aguentar. Mas sempre achei que era minha personalidade, meu excesso de racionalização das coisas, minha falta de fé.

Na época, meu irmão tinha começado a frequentar uma psiquiatra que estava ajudando com sua dificuldade de foco. O diagnóstico dele foi de TDAH e o tratamento estava surtindo efeito. Eu, que já havia frequentado terapia por mais de 10 anos, nunca tinha tido um diagnóstico de quadro psiquiátrico. Eu comecei a fazer terapia aos 20 anos logo após de uma esofagite causada por stress. Eu fazia 2 faculdades e estagiava nessa época. Minha mãe propôs e eu topei. Acho que algo em mim dizia que eu realmente precisava de algum tipo de ajuda. A terapia pareceu ser a solução e de fato não sei expressar a gratidão que tenho por ter tido a sorte de poder frequentar análise desde tão jovem. Essa experiência provavelmente ajudou a retardar um pouco mais o quadro psiquiátrico que me seria diagnosticado anos depois.

Fui abençoada de ter encontrado uma terapeuta maravilhosa de cara. Ela acompanhou uma fase bem tumultuada da minha vida e, em 6 anos, me ajudou a evoluir de uma forma que eu jamais podia imaginar. Depois dela, fui morar na Rússia por 8 meses por conta de uma relacionamento destinado ao fracasso que eu não conseguia enxergar. Esse foi um período bem complicado pra mim. Morei em um país inóspito, com uma cultura absolutamente desconhecida para mim, que falava um idioma complexo e feio, chegando em pleno inverno, com uma namorado que eu não amava mais e que não agregava, num apartamento soviético horroroso onde fiquei quase refém por todo o tempo. Todos os dias eu pensava em fazer as malas e ir embora sem avisar a ele. Todos os dias. Odiava aquele lugar, odiava aquela vida.

Quando voltei, minha mãe insistiu muito que eu voltasse a fazer terapia mas, dessa vez, com uma psiquiatra que pudesse me medicar caso necessário. Ela achava que eu estava deprimida e não estava muito longe da verdade, hoje enxergo. Aceitei e comecei minha segunda fase de tratamento psicológico em 2009. A médica, no entanto, após algumas sessões, concluiu que não havia nada que justificasse medicação e continuamos somente com a terapia mesmo. Fiquei com ela mais uns 3 anos, totalizando 9 anos de tratamento, e decidi, eu mesma parar. Cansei de falar sobre mim. Comecei a achar que aquele exercício me tornava uma pessoa ainda mais reflexiva do que já era e concluí que essa era a raiz de todos os meus problema. Queria pensar menos e agir mais. Sofrer menos e viver mais. Deixar a vida me levar.

Um ano depois, estamos em 2013 e eu estou magra, bem empregada e infeliz de modo irreversível. Decidi procurar a psiquiatra do meu irmão. Cheguei para a consulta com uma colinha (que fiz com a ajuda da minha mãe) de coisas que eu não podia esquecer de falar:

  • desde pequena acordo muito mal humorada
  • uma vez cuspi na cara do meu pai
  • não dormia quando era neném, só fui dormir um noite inteira depois dos 3 anos com ajuda de homeopatia
  • meu humor flutua demais
  • acordo triste
  • não vejo graça nas coisas simples da vida
  • sofro demais com as coisas, mais do que o resto das pessoas

Depois de uns 30 minutos passando pelos tópicos e ilustrando com exemplos da minha vida, ela me interrompeu. “Você tem distimia“. Minha mãe tinha falado sobre isso uns anos antes. Achava que podia ser o meu diagnóstico mas aquela psiquiatra que me tratou por 3 anos não concordou e ficou por isso mesmo. Danada, essa minha mãe. E aí ela me explicou o significava a distimia. Basicamente é um tipo de depressão menos profundo. Até hoje lembro do que ela disse. Segundo ela, a maioria das pessoas, vê a vida azul. De vez em quando, quando estas pessoas ficam tristes, vêem a vida cinza, eventualmente, quando muito tristes, vêem tudo preto. Ou então, quando muito alegres, podem chegar ao rosa, mas o normal para elas é o azul. Eu vejo a vida cinza. Eventualmente vejo azul ou rosa ou preto. Mas meu normal é cinza. (Pensando bem, deve ser por isso que ODEIO dias nublados). E ela me fez algumas perguntas para tirar a prova. Uma eu lembro muito claramente porque me fez sentir aliviada de finalmente ter encontrado uma explicação para a forma como eu me sentia: “Quando você recebe um elogio, a alegria dura 5 minutos, quando recebe uma crítica ou uma bronca, a decepção dura 5 dias?”.

maxresdefaultSIM! É exatamente isso. Meu copo é meio vazio, sempre espero o pior das situações e me concentro nos aspectos negativos de tudo. E é exaustivo viver assim. Quase insuportável. Não faço isso porque quero. Antes eu achava que era algo que eu podia controlar, mas hoje entendo que é mais forte do que eu. Achava que era a interpretação racional das coisas. O fardo de ser racional e enxergar as coisas como realmente são, por assim dizer. Mas não. Essa consulta foi o momento mais confortante da minha vida. Me senti humana, não sozinha, possível de ser salva. Entendi que é possível não ter religião e ainda assim ver propósito na vida e graça nas tarefas do dia a dia, como levantar da cama, por exemplo.

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Arte brilhante de Gemma Correll

Comecei a tomar remédios e depois de alguns meses e alguns ajustes, a melhora era sensível. Coincidentemente, ou não, comecei a namorar meu atual marido na mesma época. E 1 ano depois decidi tentar dar um tempo nos remédios. Queria ver se estava mais feliz porque estava amando ou se eram os remédios mesmo. Uns meses depois de parar, estava um domingo em casa vendo coisas de trabalho e reclamando (comme d’habitude) e meu futuro marido falou “nossa, mas você tá insuportável, hein” ou algo do tipo. Falou brincando, pra me provocar, mas levantou uma bandeira na minha cabeça. Voltei a tomar o remédio e voltei a me sentir melhor.

Neste mesmo ano, minha vida virou de cabeça pra baixo. Ele recebeu a proposta de emprego em Seattle, decidimos vir, decidimos casar e 1 anos depois chegamos aqui. Combinei com minha médica que pararia novamente os remédios quando viesse pra cá, mas trazendo um estoquezinho caso decidisse voltar. Detesto a ideia de ter que tomar remédios para suportar a vida, mas cheguei num ponto que não consigo mais justificar não tomá-los. Pensando bem, eu não devia ter parado. Estou numa fase difícil da minha vida. Sim, estou bem no amor. Amo meu marido. Mas estou bem acima do meu peso, não consigo emagrecer e, profissionalmente, não estou nada bem. Não posso trabalhar e não sou o tipo de pessoa que fabrica motivos para sair de casa. Preciso de um emprego para me manter ativa e estar ativa é o que me impede de sucumbir à distimia. Estou conseguindo manter uma boa rotina de exercícios físicos e isso ajuda bastante. Mas não é o suficiente. Tenho altos e baixos, mas quando os baixos vêm, me arrebatam. Choro à toa, fico irritada à toa e durmo mais do que o necessário. Alguns dias fico em casa pensando em tudo o que eu poderia estar fazendo mas não consigo achar a força para levantar do sofá e fazer. Ao mesmo tempo, me julgo fraca e ridícula por não conseguir, afinal de contas levantar do sofá é tão fácil, né? Basta levantar.

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Mais uma da Gemma.

A maioria das pessoas tem uma noção muito equivocada sobre depressão. Eu mesma tinha também. Pensava que pessoas deprimidas chorava o dia inteiro e não saíam da cama. Na verdade não existe um padrão. Cada um lida de um jeito até porque somos todos diferentes, com histórias e experiências de vida diferentes. Eu sempre consegui levantar e depois que chegava no trabalho ia espantando aquele sentimento de falta de propósito que me acometia de manhã. Se você contasse aos meus colegas de trabalho, ou até mesmo aos meus amigos, o que se passava comigo, eles não acreditariam. Sempre consegui esconder muito bem. Mas aprendi que mesmo isso não era normal e que havia formas de eu me sentir melhor e gostar de mim mesma e da vida. Se for através de remédios, não vejo demérito nisso. O pior é a triste certeza de que milhares de pessoas sofrem o mesmo (ou pior) que eu sem a chance de um diagnóstico que salve suas vidas. Não posso desperdiçar a minha.

 

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